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#ExperimentosCríticos | Repetição, implicação e contornos definidos em ‘Mujer en Lucha, Mujer en Guerra’, de Oriana del Mar [Colômbia]

  • há 22 horas
  • 3 min de leitura

Texto de Otávio Osaki produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrada por Mariana Queen Nwabasili e idealizada por Guilherme Diniz

'Mujer en Lucha, Mujer en Guerra', de Oriana del Mar [Colômbia], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)
'Mujer en Lucha, Mujer en Guerra', de Oriana del Mar [Colômbia], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)

Delineada literalmente por terra, o mapa da Colômbia está desenhada no chão de um galpão no espaço Cis Guanabara, em Campinas. Ao redor das fronteiras marcadas no centro cultural, a plateia é disposta. Esse é o palco arena e território de “Mujer en Lucha, Mujer en Guerra”, peça solo da atriz, diretora e pesquisadora colombiana Oriana del Mar. Por meio dele, a todo momento, somos convidados a nos implicar e a ultrapassar e a transitar por entre espaços culturais e político-sociais postos em cena. 


Em uma peça sem coxias, não há onde se esconder, não há meio possível para a desimplicação. O trabalho se apoia justamente no questionamento da implicação política como inerente às pessoas, levando a um transitar que se torna ação, estremece a consciência, para, assim, nos fazer pensar sobre as violências e a luta armada em um território colombiano que se dissolve a todo momento por meio de múltiplas idas e vindas da plateia ao palco-mapa. 


No início, somos todos interpelados e convidados a tomar uma dose de viche (ou “biche”), forte e popular aguardente consumida em países como Colômbia e Chile. É um primeiro convite à perturbação de nossa aparente lucidez, este possível lugar da consciência. O público também recebe uma pequena  vela  (mantida em nossas mãos até o fim da apresentação) e, em dado momento, objetos para preencher o desenho da Colômbia no chão que parece esvaziado. 


Oriana é várias em uma. Na ausência de coxias, suas trocas de figurino, suas modulações cênicas de tom e de forma ficam todas à vista, inclusive porque não há um momento sequer de escuridão total devido à persistente iluminação carregada de luzes coloridas. Ou seja, durante toda a peça, estamos convocados a ver e a nos implicar com o espaço real e simbólico construído diante de nós. E, de fato, ocorre: quem serve a aguardente, a pedido de Oriana, é a própria plateia; quem preenche a Colômbia de soldados de plástico é a própria plateia; quem escreve no papel kraft disposto no palco ao fim do espetáculo também somos nós, o público, que, ao final, também preenche o palco de velas, desta vez, sem qualquer indicação evidente de Oriana.


Chega um momento em que se torna natural esse transitar entre os limites de dentro e fora do palco. Assim, a implicação se naturaliza e não há mais por que se acanhar diante da hierarquia normalmente pré-estabelecida entre observado e observadores. O jogo aqui é outro: quem é observado vai trazer os observadores para compor sua cena. A cena também somos nós, portanto, não adianta nos escondermos. 


De novo e de novo 


A repetição textual é também formal. É como um disco arranhado, que salta para frente ou toca infinitamente. Há uma ênfase na peça, por exemplo, na presença de paramilitares na Colômbia – o prefixo “para” é cantado e repetido algumas vezes. O mesmo ocorre mais ao fim, quando, em canção, pede-se para “iluminar, iluminar e iluminar” esse povo colombiano. 


A violência igualmente é algo que retorna e se arranha em repetições. Afinal, não há como contar uma história de influências imperialistas sem passar por nossas cíclicas latino-americanas violências de novo e de novo e de novo. Um modo não tão sútil de confrontar e não naturalizar aquilo com o que nos deparamos cotidianamente. A agulha do toca disco que penetra na carne e implica em dor e morte: são muitas e muitos que ainda sofrem e morrem. 


Por fim, há algo que se desenha nessa carne, cuja dimensão é a todo momento evocada pela corporeidade de Oriana, uma relação profunda entre a geografia e o corpo humano: os rios que afluem em terra também afluem pelas bucetas de mulheres violentadas e mencionadas na peça. Há, então, uma constatação do ser mulher e um discurso unívoco sobre mulheridade. Uma totalidade que se arranha, mas não se permite abrir. 


Enquanto os outros gestos de repetição se abrem para desestabilizar e provocar, aqui o corpo da mulher é trazido enquanto esse espaço que lhe parece natural e que é confirmado pela natureza, beleza e também violência do território. Se a implicação é total e a repetição é quem deveria bagunçar as coisas, a ideia de mulheridade define-se, ajeita-se necessariamente a partir de fronteiras e ao redor daquilo que outrora fora questionado como um gesto imperialista.


  • Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival



 
 
 

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