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#ExperimentosCríticos | Encenação como saudação ritual brincante em ‘Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto’, da Cia Clariô De Teatro [Taboão da Serra/SP]

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Texto de Julia Vieira da Cunha produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrada por Mariana Queen Nwabasili e idealizada por Guilherme Diniz


'Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto', do Grupo Clariô de Teatro [Taboão da Serra/SP], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)
'Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto', do Grupo Clariô de Teatro [Taboão da Serra/SP], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)

Partindo da trajetória real da Irmandade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, comunidade liderada pelo Beato José Lourenço, no Ceará, e violentamente destruída pelo Estado na década de 1930, “Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto”, montagem da Cia Clariô de Teatro, oriunda de Taboão da Serra, na cidade de São Paulo, conecta passado e presente ao transformar essa memória em instrumento de resistência e reafirmação da identidade de um povo que foi apagado pela historiografia oficial. 


A narrativa é estruturada em quatro momentos: nascimento, batismo, morte e ressurreição, apresentados por meio de placas gradualmente dispostas no palco, que orientam o espectador e demarcam o desenvolvimento da ação cênica. É a estrutura da Liturgia do Boi, que acaba concebendo a encenação como um ritual coletivo de manifestação popular brasileira, em que música, dança e corporeidade atualizam saberes ancestrais e convertem o palco em um espaço de celebração, memória e resistência. A perspectiva dialoga com o pensamento de Leda Maria Martins, para quem o ritual e a performance constituem formas de transmissão da memória e da ancestralidade por meio do corpo, da oralidade e da experiência compartilhada, fazendo da cena um território vivo de preservação e reinvenção das tradições afro-brasileiras. 


Como pesquisadores-brincantes de manifestações da cultura popular brasileira, como o jongo e o maracatu, os atores recorrem ao estado de corpo expandido para estabelecer uma relação lúdica e ritualística com o público, conduzindo o protagonista fabular Boi Mansinho – e também os próprios espectadores – por uma verdadeira festa que se dá no palco; uma folia e uma  louvação que constituem a experiência coletiva passada e presente da comunidade do Caldeirão. 


Ao longo da encenação, saudações dirigidas a entidades como os pretos velhos, os orixás, os santos da Igreja Católica, o povo da rua e os bêbados atravessam a narrativa de forma a evidenciar o sincretismo religioso brasileiro. Longe de ser um mero elemento cênico, essa reverência traduz a força espiritual e cultural da comunidade, cujas trajetórias de resistência se erguem contra um Estado autoritário e higienista, aqui simbolizado e satirizado na figura do diabo. Nesse sentido, o espetáculo se revela como um “pulso de vida”, trajetória e reconhecimento de um povo que também compõe histórias de vida como e da autora que aqui escreve, reafirmando identidades negras que resistem e persistem na manutenção de sua existência e memória.


  • Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival

 
 
 

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