#ExperimentosCríticos | Encenação como saudação ritual brincante em ‘Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto’, da Cia Clariô De Teatro [Taboão da Serra/SP]
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Texto de Julia Vieira da Cunha produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrada por Mariana Queen Nwabasili e idealizada por Guilherme Diniz
!['Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto', do Grupo Clariô de Teatro [Taboão da Serra/SP], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_78596494b3a74251a9e4cf47d588a7e8~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_654,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_78596494b3a74251a9e4cf47d588a7e8~mv2.jpg)
Partindo da trajetória real da Irmandade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, comunidade liderada pelo Beato José Lourenço, no Ceará, e violentamente destruída pelo Estado na década de 1930, “Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto”, montagem da Cia Clariô de Teatro, oriunda de Taboão da Serra, na cidade de São Paulo, conecta passado e presente ao transformar essa memória em instrumento de resistência e reafirmação da identidade de um povo que foi apagado pela historiografia oficial.
A narrativa é estruturada em quatro momentos: nascimento, batismo, morte e ressurreição, apresentados por meio de placas gradualmente dispostas no palco, que orientam o espectador e demarcam o desenvolvimento da ação cênica. É a estrutura da Liturgia do Boi, que acaba concebendo a encenação como um ritual coletivo de manifestação popular brasileira, em que música, dança e corporeidade atualizam saberes ancestrais e convertem o palco em um espaço de celebração, memória e resistência. A perspectiva dialoga com o pensamento de Leda Maria Martins, para quem o ritual e a performance constituem formas de transmissão da memória e da ancestralidade por meio do corpo, da oralidade e da experiência compartilhada, fazendo da cena um território vivo de preservação e reinvenção das tradições afro-brasileiras.
Como pesquisadores-brincantes de manifestações da cultura popular brasileira, como o jongo e o maracatu, os atores recorrem ao estado de corpo expandido para estabelecer uma relação lúdica e ritualística com o público, conduzindo o protagonista fabular Boi Mansinho – e também os próprios espectadores – por uma verdadeira festa que se dá no palco; uma folia e uma louvação que constituem a experiência coletiva passada e presente da comunidade do Caldeirão.
Ao longo da encenação, saudações dirigidas a entidades como os pretos velhos, os orixás, os santos da Igreja Católica, o povo da rua e os bêbados atravessam a narrativa de forma a evidenciar o sincretismo religioso brasileiro. Longe de ser um mero elemento cênico, essa reverência traduz a força espiritual e cultural da comunidade, cujas trajetórias de resistência se erguem contra um Estado autoritário e higienista, aqui simbolizado e satirizado na figura do diabo. Nesse sentido, o espetáculo se revela como um “pulso de vida”, trajetória e reconhecimento de um povo que também compõe histórias de vida como e da autora que aqui escreve, reafirmando identidades negras que resistem e persistem na manutenção de sua existência e memória.
Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival





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