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#ExperimentosCríticos | Biópsia latino-americana em ‘Confesiones’, solo de Ana Corrêa do Grupo Yuyachkani [Peru]

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Texto de Sofia Fransolin produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrada por Mariana Queen Nwabasili e idealizada por Guilherme Diniz


'Confesiones', espetáculo do Grupo Cultural Yuyachkani [Peru], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)
'Confesiones', espetáculo do Grupo Cultural Yuyachkani [Peru], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)

De fora da sala, ouvimos uma música como pano de fundo dos avisos (os longos e conhecidos avisos) que precedem o espetáculo a ser encenado no Teatro Barracão durante o 19º Feverestival - Festival Internacional de Teatro de Campinas. O ambiente, ao que parece, é festivo. Mas, assim que adentramos o espaço, uma figura bufônica e um tanto quanto amedrontadora nos recebe. Sua máscara tem orelhas e nariz pontiagudos, bocarra vermelha repleta de dentes (não fosse a ausência de um) e olhos arregalados. Seu corpo é gordo e está vestido todo de branco. As mãos, protegidas por luvas higiênicas e a cabeça, coberta por chapéu com a cruz vermelha. Estamos diante de uma palhaça enfermeira. Seremos testemunhas de sua biópsia, e isso é de suma importância. 


O que assistimos em “Confesiones”, solo de Ana Corrêa, do Grupo Yuyachkani, do Peru, é o dissecar de um corpo experiente que abriga tantos outros dentro de si. Cinco mulheres em cena, todas dentro de uma. A estrutura da peça é simples e poderia ser traduzida por diferentes terminologias: uma palestra-performance, uma desmontagem cênica. Mas, como não houve tradução da apresentação, não buscaremos aqui descrever com outras palavras aquilo que já está posto desde o título:  “lo que vamos a ver son confesiones”. Um literal e simbólico desnudar-se frente ao público. Um corpo vivo, pulsante, que pelo próprio ofício se deixa ser emprestado vezes e vezes e se transformar desde a ponta dos pés até o brilho do olhar. 


Com sede em Lima, o coletivo  Yuyachkani tem suas criações apresentadas no palco por meio de lapsos e  personagens encarnadas por Ana Corrêa, que reverberam a situação política do país nas últimas décadas do século XX até o desabrochar do século XXI. Yuyachkani significa “Estoy Piensando, Estoy recordando”. O grupo persiste há 55 anos, constrói-se através da memória e propõe o desafio de nos lembrarmos de histórias num continente soterrado por esquecimentos. 


No palco, uma cadeira e um microfone são iluminados à esquerda. O resto é um imenso “vazio” delimitado por linhas de fita crepe branca que marcam um perímetro quadrado no chão. Um palco “vazio” é um terreno imenso para a imaginação, um espaço que  se metamorfoseia por meio da tecnologia fantástica de um corpo em cena.  Nos lembramos que o nosso corpo é território de batalha, de disputa, de controle, de luta mas também de experiência, de sensibilidade, de sonho, de pulsão de vida. 


É no limiar tênue que o realismo mágico de Allande, Marquez, Llosa, Villada, Cortázar, Borges, que Côrrea nos apresenta suas personagens como figuras reais e fantásticas: de repente, estamos no topo de uma montanha, dentro de uma igreja, em uma sala de aula,  em um quintal. Pelas atuações da atriz veterana, conhecemos “la Santera”, “la Bernardina”, “la profesora”, “la lavandera”, “la Asháninka”. Também conhecemos um pouco mais sobre o Peru e sobre a América Latina mais amplamente.


O fim é lancinante como um punhal fincado no baixo ventre: la Asháninka, uma personagem mulher indígena, veste um manto cravejado de fotografias, frases e relatos reais, fortes e, por vezes, dolorosos. Em cima de uma mesa, ela gira quase totalmente despida. É a última roupa de Ana Corrêa. Palavras e o próprio corpo como imagem e signo. Nada mais é e precisa ser dito. 


Entretanto, o Teatro Barracão retoma, mais uma vez, o seu longo discurso já proferido no início. De toda a experiência mágica (típica do nosso realismo latino-americano) que havíamos vivido, resta indagação direcionada ao Teatro Barracão. Se acreditamos tanto na potência da arte, deixemos a ela um pouco mais de respiro. Afinal, o que Ana Corrêa havia criado naquela sala “vazia” era demasiadamente sensível e já bastante duro de encarar dentro e fora da caixa preta, onde o QR Code seria fotografado e o pix seria feito. Mas, para escutar e ainda sentir, era necessário insistir em um pouquinho mais de silêncio com relação ao mundo cifrado.


  • Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival


 
 
 

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