#ExperimentosCríticos | Travessias violentas e festivas da história em ‘Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto’, do Grupo Clariô de Teatro [Taboão da Serra/SP]
Texto de Jean Luz produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrado por Mariana Queen Nwabasili e idealizado por Guilherme Diniz
!['Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto', do Grupo Clariô de Teatro [Taboão da Serra/SP], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_89031d519e174869a73f2355c1f3df61~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_653,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_89031d519e174869a73f2355c1f3df61~mv2.jpg)
Utilizando a estética do Reisado (folguedo popular), a peça “Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto”, do Grupo Clariô de Teatro, aborda o massacre da Irmandade Caldeirão de Santa Cruz do Deserto de forma lúdica e provocativa. A comunidade, formada majoritariamente por trabalhadores rurais negros e seguidores do beato José Lourenço, existiu de verdade na região do Cariri, no Ceará, entre 1926 e 1937, ocupando terras doadas à Igreja para garantir a subsistência coletiva. Sua prática de autonomia passou a ser vista como ameaça aos interesses do Estado, culminando em um extermínio de cerca de 800 pessoas pouco contado em nossa história.
Antes de narrar o massacre, o Grupo Clariô prepara o espectador para atravessar o universo da obra. O prólogo rompe a separação entre palco e plateia ao convidar todos para uma roda de cantigas e danças populares na qual, durante a segunda noite do 19º Feverestival - Festival Internacional de Teatro de Campinas, um dos pontos cantados lembrou a história da cidade ao citar versos da Comunidade Jongo Dito Ribeiro.
Aos poucos, referências afro-brasileiras, indígenas e cristãs transformaram o acolhimento em ritual. O convite aos “bêbados” – não os etílicos, mas os embriagados pela mistura sincrética, pelo jogo e pela brincadeira – leva a uma abertura da encenação e, assim, faz da arte uma experiência coletiva de pertencimento.
Diferentes travessias feitas na obra tornam impossível enxergar o massacre do Caldeirão como um episódio isolado. A dramaturgia aproxima o evento a outros extermínios coletivos, como o massacre do Carandiru e o atual genocício na Palestina. Desse modo, o Grupo Clariô revela que essa violência persiste em diversos tempos e territórios, mesmo que ainda insistimos em não assim enxergá-la.
Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival





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