#ExperimentosCríticos | O tempo, a imagem, o discurso e a gente no teatro jogando com tudo em ‘Restinga de Canudos’, da Cia do Tijolo [São Paulo/SP]
- 2 de jul.
- 4 min de leitura
Texto de Sofia Fransolin produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrado por Mariana Queen Nwabasili e idealizado por Guilherme Diniz
!['Restinga de Canudos', da Cia. do Tijolo [São Paulo/SP], realiza abertura do 19º Feverestival. Foto: Dalton Yatabe (Chun)](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_3f5da9322f6e4cf6952705a0f2631f68~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_653,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_3f5da9322f6e4cf6952705a0f2631f68~mv2.jpg)
1. Tempos de começo
“Eu tô aqui, eu não tô só…”.
Essa frase ecoando pelo Teatro Castro Mendes, durante a noite de abertura do 19º Feverestival - Festival Internacional de Teatro de Campinas.
No palco, 12 artistas e uma professora, também artista, e por quê não?
Na platéia, disseram, 500 pessoas entoando a música-matriz do trecho que abre este texto e que, após inúmeras repetições, tornara-se um mantra, uma reza, uma ladainha.
“Restinga de Canudos”, encenada pela Cia do Tijolo, é uma peça sobre a coletividade e a sua potência. Mas, acima de tudo, é uma experiência sobre o tempo em suas mais distintas manifestações.
O tempo dilatado das três horas de espetáculo que não se apressa, nem atropela os acontecimentos. Pois acontecer no mundo leva tempo. Seja o tempo de servir o cuscuz para cada um e todos os indivíduos presentes no teatro, seja o tempo para contar uma história complexa, que, portanto, exige uma linguagem complexa, com recursos imagéticos, projeções, sombras, músicas e texto, muito texto… Daqueles que são digeridos aos poucos; daqueles que fazem sentir e pensar.
Leva tempo…
Transpor o nosso passado para o presente contínuo do palco.
Ora estamos lá em Canudos, ora cá em Campinas. Do início da república até o ápice do capitalismo tardio e seu abismo inexorável foi pouco mais de um século, quatro ou cinco gerações ou 170 minutos de peça.
2. Tempos de atenção e cansaço
Apesar de o incômodo, por vezes, nos dizer mais do que o aplauso, não deveríamos nos preocupar com aquelas e aqueles que, frente à duração do espetáculo, saíram da sala para ir ao banheiro, beber água ou deixar de vez o teatro. Também não deveria chatear enormemente o fato de, em determinada altura da experiência, algumas pessoas cederem ao impulso contemporâneo de pegar o celular para checar as últimas atualizações (frequentemente nada urgentes).
Tudo isso diz mais sobre a experiência da espectatorialidade. E, em tempos em que tem sido cada vez mais difícil a captura da atenção, a experiência coletiva deveria nos possibilitar desapegar da contagem do tempo.
Portanto, não atribuímos nosso cansaço como espectadoras de “Restinga de Canudos” à duração da obra, mas sim à forma como o discurso foi transfigurado em cena: por meio de um didatismo exacerbado que no teatro político, sem dúvidas, deve ser entendido como proposta estética.
3. Tempos de discursos
Nesse sentido, é necessário olhar crítico sobre a montagem. É bem verdade que a peça propõe um desafio gigantesco: contrapor a história hegemônica, apresentar um novo ponto de vista. E isso é feito. No entanto, como?
A Cia do Tijolo nos apresenta uma peça regada de elementos da cultura popular brasileira. A corporalidade do Cavalo Marinho é só um dentre os tantos exemplos. A musicalidade pungente que perpassa toda a encenação garante a ela um diálogo tanto com as brincadeiras populares como com o épico brechtiano, enquanto comentário crítico-pedagógico que rompe a quarta parede constantemente.
Mas ao fim e a cabo, esses elementos potentes parecem ser constantemente interrompidos pela verborragia discursiva. O palavrório é poético, sem dúvidas, mas um tanto quanto cansativo por se fiar na reiteração como principal viés argumentativo. O conceito (contrapor a história hegemônica) está posto e os argumentos são bem fundamentados, mas teatro não é só discurso, e sim sua materialização em cena.
As projeções feitas de forma analógica, por meio do retroprojetor, são um recurso valioso. Sua luz projetada no telão disposto ao fundo da cena, ora cria silhuetas que brincam com os tamanhos e as quantidades de atuantes no palco, ora exibe imagens que ilustram o discurso proferido pelo texto. O equipamento, que nos remete às escolas em tempos anteriores à consolidação da tecnologia digital, dialoga com o didatismo presente na peça, lembrando-nos, sempre que possível, que estamos em “sala de aula”.
As projeções ilustram, mas não arriscam mais do que isso. Há momentos de exceção, como, por exemplo, quando um prato Duralex âmbar é sobreposto à fonte de luz do projetor, dando a sensação de uma inundação do açude que é mencionado nas músicas. Ou, então, quando toda a superfície do aparelho é riscada com caneta vermelho-sangue e, em seguida, numa reiteração da sugestão de violência, pingam-se gotas de pigmento rubro sobre as transparências.
Apesar dessas construções, as palavras parecem mais importantes do que as imagens ou acreditam demasiadamente equivaler a elas, dar conta delas. O coro de atores alcança por vezes a criação de “fotografias-síntese”, mas tão logo elas se concretizam, desmancham-se ou perdem espaço para mais palavrório. Fica na boca o gosto agridoce de querer ter justamente mais tempo para saborear as figuras criadas. Em especial no momento ápice da peça, quando Canudos se vê frente à frente com os soldados republicanos. Há algo ali, naqueles dois grupos que se encaram, nas armas de bambu, na iluminação que se adensa. Teríamos tempo para mais um ou dois longos respiros antes da imagem escorregar por entre os nossos olhos?
Em outras palavras, o incômodo está na discrepância entre o tempo demasiadamente dilatado dos discursos que são pregados — e se repetem ao longo da encenação — e a fugacidade das figuras e paisagens no palco, que se desmanchavam antes de terminarem de dizer tudo parecem poder e querer.
Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival





![#ExperimentosCríticos | Repetição, implicação e contornos definidos em ‘Mujer en Lucha, Mujer en Guerra’, de Oriana del Mar [Colômbia]](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_867868d4aab4401793d3174938d53898~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_653,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_867868d4aab4401793d3174938d53898~mv2.jpg)
![#ExperimentosCríticos | Biópsia latino-americana em ‘Confesiones’, solo de Ana Corrêa do Grupo Yuyachkani [Peru]](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_bed2f25185934010b4d400dd2fd354cd~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_653,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_bed2f25185934010b4d400dd2fd354cd~mv2.jpg)
![#ExperimentosCríticos | Encenação como saudação ritual brincante em ‘Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto’, da Cia Clariô De Teatro [Taboão da Serra/SP]](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_78596494b3a74251a9e4cf47d588a7e8~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_654,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_78596494b3a74251a9e4cf47d588a7e8~mv2.jpg)
Comentários