#ExperimentosCríticos | O caminho reverso em ‘Restinga de Canudos’, da Cia do Tijolo [São Paulo/SP]
- 3 de jul.
- 4 min de leitura
Texto de Jonas Gimenes Bíscaro produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrado por Mariana Queen Nwabasili e idealizado por Guilherme Diniz
!['Restinga de Canudos', da Cia. do Tijolo [São Paulo/SP], na abertura do 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_4081696376804d188da5b4fc9f76d698~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_1468,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_4081696376804d188da5b4fc9f76d698~mv2.jpg)
Lugar hostil de gente tão pacífica
Nordeste ficção científica
Trecho de Nordeste Ficção, composição de Juliana Linhares e Rafael Barbos
A história que a Cia do Tijolo vem nos contar na peça Restinga de Canudos ressoa primeiro pela música. Destacam-se as composições que evocam a comunidade de Canudos como um lugar que está “no aqui”. No início da peça, a toada musical nos apresenta à pequena cidade insurgente como aquela que, hoje, segue submersa no açude Cocorobó, na Bahia.
Valendo-se de uma pesquisa ampla, a montagem escolhe enfocar o arraial regido por Antônio Conselheiro para além do que ficou eternizado em Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. Como o “Hércules-Quasímodo” euclidiano não abarca a complexidade com que merece ser tratado o povo de Canudos, a encenação é feita sob uma interpretação política que revisita o acontecido, munindo nosso imaginário com perspectivas sobre orgulho e justiça histórica.
A abordagem remete ao quadro Canudos não se rendeu, de Luiz Zerbini, no qual as cores vibrantes e as ricas representações do povo e da biodiversidade da caatinga propõem evidenciar versões de uma história que, como diz o próprio pintor, nunca é a mesma a depender de quem a conta. E a versão da Cia do Tijolo apresenta um tom mais educativo em sua proposta de reestruturação dos nossos imaginários. Um didatismo que acompanha a companhia desde sempre em sua história, e, desta vez, coloca a palavra como dominante no espaço sem abertura para possibilidades diversas de interpretações.

Como cantam os atores em diferentes músicas presentes na montagem, a pequena cidade insurgente – hoje submersa no açude Cocorobó, na Bahia – guarda uma face notável da luta pela justiça social presente na formação da república brasileira. Entretanto, o que segue impresso nos livros de história e literatura é o que nos conta o Brasil dos poderosos e não o dos maltratados. A abordagem mostra que Restinga de Canudos não opera pelas margens da dúvida. Pelo contrário, sabe muito bem o que quer que seus espectadores entendam e se certifica por todos os lados que este jogo esteja ganho.
Até mesmo em meio às ótimas escolhas musicais, Restinga de Canudos detém-se mais sobre a palavra do que sobre o corpo dos atores que cantam em conjunto. Ponto que se mostra nas suas diversas composições de fila frontal acompanhadas das canções. Neste momento, ao não propor uma codificação corporal minuciosa aliada ao canto, acaba-se por construir uma barreira à imaginação que a letra das canções convoca.
Por outro lado, o espetáculo traz um bom questionamento na voz da personagem Euclides da Cunha, interpretada por Rodrigo Mercadante. O que acharia um brasileiro republicano da época sobre uma vila monarquista comandada por um beato que se dizia messias? Seria Canudos uma ideia sã? O personagem indaga diretamente ao público, em favor de sua própria defesa. Isso tensiona os conflitos entre discurso do espetáculo e razão dos espectadores. No entanto, essa fértil incerteza não se mantém por muito tempo. O espetáculo é uma série de convicções.
No momento de confronto argumentativo entre Antônio Conselheiro e Euclides da Cunha, Mercadante apresenta um bigode aparado, cabelos brancos, veste paletó e calças beges que sugerem a memória do sertão árido, em consonância com o pensamento euclidiano. Já Dinho Lima Flor — que dá vida a Conselheiro e dirige a peça — usa trajes azuis com detalhes estampados, feitos em tecidos leves. Seu semblante está munido de um caráter beato e nele, como um todo, pulsa a vividez da Canudos reivindicada ali. Parados, empenham-se em uma discussão contundente sobre aquilo que cada um representa em contraste ao outro, testemunhando suas existências intimamente ligadas. A palavra, inserida no campo denso desse confronto, toma o espaço da ação e a mente daquelas figuras se sobrepõe a seus corpos. Considerando o conjunto, esta afirmação pode ser levada como tônica da aposta de atuação da obra, já que os personagens mostram-se e confrontam-se na estrutura do drama a partir de suas palavras sobre si mesmos — e não costurando-as juntamente de suas ações em cena.
A impressão que fica, portanto, é de que uma peça de teatro deve ter mais do que certeza em sua composição. Afinal, onde está a poeta Canudos que escreve seus próprios versos, para além das convicções da engajada Cia do Tijolo? Como mergulhar no Cocorobó em busca da poesia e não de tese?
Esta é uma peça de argumento, uma proposta de revisão. Restinga de Canudos é uma reversão teórica sobre a história do arraial. Porém, no teatro, a poesia há de ganhar espaço para se recriar e se colocar em risco junto da razão. Necessita ser escrita e fundamentada pelo corpo essa dramaturgia que ressignifica a história da vila.
Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival





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