#ExperimentosCríticos | No fio da navalha, no limite da buzina: poéticas do risco, do riso e do controle em ‘El Coche’ e ‘Desequilíbrio Urbano’, de Karcocha [Chile]
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Texto de Julia Vieira da Cunha produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrada por Mariana Queen Nwabasili e idealizada por Guilherme Diniz
![Karcocha [Chile] em 'El Coche' no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)](https://static.wixstatic.com/media/8ec82a_d8af3692073240fbb90f1d9a89f5f59e~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_654,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8ec82a_d8af3692073240fbb90f1d9a89f5f59e~mv2.jpg)
A rua não ensaia, ela acontece. Essa afirmação traduz a presença cênica e a condução potente do artista chileno Karcocha, que se autodenomina “arlequim contemporâneo”. Entre o fluxo cotidiano da Praça Carlos Gomes, na cidade de Campinas, em São Paulo, o artista fez das ruas seu palco ao apresentar, na 19ª edição do Feverestival, “El Coche” (O Carro), uma performance de palhaçaria que atravessa gerações e convida públicos de todas as idades a partilharem de uma experiência coletiva.
O título da obra ressoa diretamente a expressividade corporal desenvolvida ao longo da apresentação: em diversos momentos, o artista parece estabelecer uma simbiose com os automóveis que transitam na rua lateral da praça escolhida para o show, fazendo emergir um verdadeiro “corpo-carro”. Essa corporeidade singular mantém o público que assiste à intervenção em constante estado de tensão e fascínio. Uma corporeidade que demonstra que Karcocha está habitando uma zona limite entre o jogo e o risco, contracenando não apenas com veículos triviais, mas também com caminhões, motocicletas e pedestres desavisados. Assim, ressignifica o fluxo cotidiano de pessoas da cidade como forma de criação e intervenção artística.
O público acompanha uma série de personagens que surgem e desaparecem à medida que a ação do arlequim se desenrola em diversas situações. A cada nova interação, o jogo e o espaço se reconfiguram de acordo com a resposta das pessoas que atravessam e compõem cenas que demonstram (fazem surgir) a teatralidade do cotidiano à cena. Algumas se mostram mais disponíveis do que outras. Outras transpareciam, apenas pelo olhar, o desejo de não interagir, de forma alguma, com o artista. Acima de tudo, porém, o riso atravessa a maioria dos corpos presentes e passantes, revelando que, por vezes, o encontro entre artista e público acontece para além das palavras.
Cotidiano performativo vs risco controlado
Acostumados à rotina e aos gestos automatizados do cotidiano, tendemos a naturalizar aquilo que nos cerca. O trabalho de Karcocha, porém, interrompe essa lógica ao transformar o ordinário em acontecimento e convidar o público a experimentar a cidade sob nova e mais leve perspectiva. É nesse sentido que as ações de Karcocha se mostram como performance. Precisas e cuidadosamente elaboradas, elas cortam a realidade do espaço urbano e das pessoas que o atravessam. Uma prática que se aproxima da ideia de “programa performativo”. Formulado pela performer e professora universitária brasileira Eleonora Fabião, tal conceito pode ser entendido como uma estrutura de ações previamente estabelecidas que, ao serem colocadas em prática, produz encontros, deslocamentos e novas formas de perceber o cotidiano.
Apesar da força do jogo proposto, as reconfigurações espaciais por ele criadas passam a exigir paciência para a lida com momentos de baixa visibilidade das ações e interações, seja pela concentração do público, seja por barreiras estruturais do próprio ambiente. Além disso, o encerramento de “El Coche” ocorre de forma bastante abrupta – ou seria também programada? –, exposto um menor refinamento técnico percebido frente a momentos auge da diversão gerada pela intervenção. Algo que se repetiu de forma mais compreensível na apresentação do palhaço realizada no dia seguinte.
No espetáculo “Desequilíbrio Urbano”, determinados procedimentos cênicos de Karcocha se desenvolveram de maneira mais evidente, uma vez que sua proposta é estruturada a partir de uma relação mais direta e previsível com o público. Em diversos momentos, espectadores são convidados a participar das ações cênicas que, neste caso, aconteceram no palco da Concha Acústica do Parque Portugal. A autora que aqui escreve foi uma das participantes voluntárias do show, que se traduziu como uma experiência divertida e instigante também individualmente falando.
Diferentemente do risco físico evidenciado em “El Coche”, em “Desequilíbrio Urbano” o inesperado assume uma dimensão mais simbólica. Ao criar e dirigir cenas interpretadas pelos participantes do público envolvendo temas como traição e ciúme, Karcocha improvisa e coloca os participantes diante de sensações limite: entre o constrangimento, o humor e a cumplicidade. Entretanto, é perceptível a repetição de alguns números e jogos apresentados na primeira proposta, o que, neste caso, acabou reduzindo o fator surpresa e, consequentemente, o impacto cômico para parte do público que conhece os dois espetáculos – embora a repetição possa fazer parte da construção da linguagem do artista.
Ao final deste encontro, torna-se evidente a potência da presença de Karcocha em cena, especialmente em um contexto no qual grande parte da produção teatral contemporânea se volta para narrativas marcadas pelo drama e pela introspecção muito marcadas. Sua obra nos lembra que estar vivo diante da vida também é rir; um riso que não aliena, mas aproxima e arrisca; que interrompe o fluxo apressado da cidade e transforma desconhecidos em cúmplices de um mesmo acontecimento. Talvez seja justamente aí que resida a força de sua poética arlequinesca, moduladora de um bom e bem-humorado caos.
Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival





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