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#ExperimentosCríticos | Ana Corrêa, do Grupo Yuyachkani, torna-se Colibri Maravilhoso em ‘Confesiones’ [Peru]

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Texto de Dione Pizarro produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrada por Mariana Queen Nwabasili e idealizada por Guilherme Diniz

'Confesiones', espetáculo do Grupo Cultural Yuyachkani [Peru], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)
'Confesiones', espetáculo do Grupo Cultural Yuyachkani [Peru], no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)

Colibri Maravilhoso é uma das aves mais bonitas do mundo devido ao seu visual único que vibra cores iridescentes. Endêmico das florestas amazônicas, é um símbolo profundamente enraizado na cultura e na identidade peruana. 

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O vento do tempo sopra sobre as tábuas de madeira onde a veterana atriz peruana Ana Corrêa, do longevo Grupo Cultural Yuyachkani, constrói um santuário de giz riscado no chão. O perímetro guarda os fantasmas de uma época de chumbo. Ali, ela encarna primeiro uma mulher solitária que se assenta diante de suas próprias anotações, decifrando os enigmas da criação artística antes de cruzar a fronteira da ilusão. 


A partir disso, aborda a trajetória do Grupo Yuyachkani, lembrando, inclusive, de seu atravessamento pelo encontro com Antunes Filho, do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), quando ambos os grupos compartilharam o ideal de um teatro calcado na realidade política e na memória coletiva de seus países. Comemorando 55 primaveras, o coletivo peruano foi e é, sem dúvidas, um pilar de sobrevivência dos próprios atores. Yuyachkani significa, em quéchua, "estou pensando / estou lembrando". Assim, leva a um teatro voltado às memórias coletivas e a traumas políticos e sociais. Dramaturgia de resistência, memória e identidade.  


O que vemos em cena  é uma dança circular e invisível, um eco profundo que amarra as dores de uma nação peruana ferida, os sobressaltos de uma vida inteira dedicada à atuação e os laços construídos pelo referido coletivo artístico. Tudo é  desaguado na presença indomável das almas que Ana escolheu ressuscitar e interpretar diante de nós. A artista entra em cena vestida com o peso de todas elas e, num desfolhar contínuo, a partir de propostas corporais que remetam a um descondicionamento e desequilíbrio, vai desnudando o passado ao se libertar de cada manto, expondo a identidade da próxima lembrança. 


Esse despojamento coreografado mostra que a ficção e o mundo real se fundiram sem retorno. Cada vestimenta que cai revela que o ofício da cena não é um disfarce, mas um espelho interno que atravessa a mãe, a militante e a cidadã artista que se expõe, transformando irrevogavelmente todas as personagens reais e inventadas que a compõem.


Como folhas sobrepostas que escondem o coração de um fruto, vidas gestadas no período do terror passam a habitar a mesma pele. Essa imersão no escuro de si mesma transforma o teatro em um clamor por dignidade, um manifesto estético onde resgatar a própria voz se torna o maior gesto de soberania. Ao quebrar as mordaças históricas e desafiar as regras do silêncio, o palco se transmuta em solo de cura e rebelião contra o esquecimento. É no encontro da ferida social com a delicadeza do gesto que se inventam novas formas de caminhar pela terra, provando que as artes cênicas (do teatro à performance, assumida ao final) é, na verdade, a feitura constante da própria liberdade.


Ao fim do espetáculo, Ana Correa, como um colibri maravilhoso, de asas fortes e abertas, acolhe sua própria história de resistência, com as memórias da colonização e do extermínio constante de seu povo no Peru e em outros territórios da América Latina. Nesse momento singular da mulher, cidadã e artista, são projetados em sua vestimenta (um manto) documentos / memorialistas dos crimes perpetrados contra os povos originários do Peru. 


  • Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival




 
 
 

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