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#ExperimentosCríticos | Equilíbrios e desequilíbrios de Karcocha em ‘El Coche’ e ‘Desequilíbrio Urbano’ [Chile]

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Texto de Otávio Osaki produzido para o 19º Feverestival como parte da Oficina de Crítica Teatral, ministrada por Mariana Queen Nwabasili e idealizada por Guilherme Diniz

Karcocha [Chile] realiza apresentações no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)
Karcocha [Chile] realiza apresentações no 19º Feverestival - Foto: Dalton Yatabe (Chun)

A esperança equilibrista 

Sabe que o show de todo artista 

Tem que continuar

Trecho de O bêbado e a equilibrista (1979), canção de João Bosco e Aldir Blanc 


1. Azar e sorte


Como um bom e literal palhaço, Karcocha é hilário e isto é um consenso. O chileno e cosmopolita arlequim contemporâneo, mímico do espaço urbano, tem missão evidente e bem cumprida: endorfinar os corpos daqueles que o encontram pelas ruas e fazer disso seu combustível para seguir, criar seu próprio ouroboros. De fato, estamos diante de algo que se destrói e reconstrói a todo momento, que é o princípio e o fim de si mesmo, ou, pelo menos, é o que se sugere em um primeiro momento.


Azarados ou sortudos são aqueles que cruzam seu caminho, em performances como El Coche. Seu palco é o espaço aberto, a calçada, o trânsito de perímetro indefinido que se alarga, se constringe, sanfona em profundidades com facilidade e, se tiver prédios atrás, pode ir até às máximas alturas. Seus parceiros de cena são os azarados ou sortudos pedestres, motoristas que passam despretensiosamente. Frente a eles e à correria das metrópoles Karcocha não hesita, tem como língua própria e afiada de um clown uma “voz apito” que se comunica sem dizer palavras límpidas, mas que são capazes de ser total e universalmente compreendidas.  


Ele é sagaz e cortante em suas ações: rouba objetos das pessoas, monta nas garupas das motos, abre as portas e porta-malas dos carros. Revira tudo que encontra, convertendo e revelando o cotidiano em teatral comédia. Encontra óculos escuros, latinhas de refrigerante e calcinhas entre pertences de transeuntes que testemunharam sua divertida magia durante intervenções nas ruas de Campinas como parte da programação do 19º Feverestival. 


Teve quem amasse e quem odiasse. Quem interagisse e quem ignorasse ou até olhasse torto em meio ao jogo aberto a tudo que tivesse risco do cotidiano como palco impreciso. É a proposta de caos como intervenção na cidade cheia de lugares e ritos bem definidos, de trânsito e passageiros planejados. Em dado momento, os carros que passavam pelo perímetro de intervenções do palhaço engarrafavam, buzinavam, e transeuntes gritavam, reagindo  mal à suposta perda de tempo das interações inesperadas e repentinas em uma sexta-feira à tarde na Praça Carlos Gomes, região central da metrópole de Campinas. O espaço urbano demonstra que  se desestabiliza nessas ocasiões em que a tensão do cotidiano é interrompida pelo imprevisto. Uma desestabilização que propõe que encontremos outros rearranjos para seguir caminho, seja sendo um trabalhador de empresa de telefonia que caminha segurando cabos em seu braço, seja sendo uma senhora curiosa que observa as ações cômicas do arlequim garantindo uma distância segura para não ser, de fato, incorporada à cena aberta, enredada no inesperado jogo. 


2. Camadas de segurança 


É nesse sentido que se nota a existência de algumas previsões e seguranças que impedem o desequilíbrio mais radical possível pelas intervenções de Karcocha. Seu palco é a rua, mas existe uma grade que o separa do público programado e sentado em cadeiras para assistir suas palhaçadas em meio ao Festival. Uma espécie de redoma que garante a essa específica plateia isenção a uma cooptação pela dinâmica do improviso e imprevisto proposta. Ou seja, é confusão, mas também não é para tanto. O palco é mais bem definido do que parece. 


No dia seguinte, pela manhã, o espetáculo “Desequilíbrio Urbano, realizado também a céu aberto, irônica e paradoxalmente torna tudo ainda mais equilibrado em um show realizado no Parque Taquaral da cidade, que segue para zona de segurança evidente. 


Tal como no dia anterior, tudo se inicia na rua. Os carros são incomodados e os pedestres tirados de sua andança ordinária. Mesmas piadas de antes, mesmas propostas e também igualmente hilárias as atuações de Karcocha. A endorfina parece correr pelos corpos do mesmo modo. 


Não passado muito tempo, inicia-se uma procissão para dentro do parque. Todos, religiosamente, seguem o arlequim contemporâneo, levando-nos a habitar um momento de conformação temporal coletiva que realinha o espaço: juntos, aceitamos sair de um ambiente urbano mais caótico para sentarmos diante da grandiloquente concha acústica dentro do Parque como assumidos e ávidos espectadores da graça. A hierarquia se restabelece, as coisas encontram seus devidos lugares: público de um lado, artista de outro. Um previsível equilíbrio emoldura as próximas ações do palhaço e o que antes tinha perímetro confuso, agora tem perímetro milimetricamente definido. Todos estão ali para isso, querem isso. 


Daí em diante, novamente com sua ‘voz de apito” de clown naturalmente cômica, a intervenção de Karcocha passa a chamar pessoas pontuais do público para lhe ajudar em piadas no palco, todas baseadas no humor físico e no movimento desajeitado desses espectadores (sobretudo homens) envergonhados e, justamente por isso, divertidos. Afinal, todo mundo ri quando um amigo, familiar ou completo desconhecido é colocado em uma situação embaraçosa e sem escapatória. Isto não é desequilibrar, muito pelo contrário, é apostar onde a graça é garantida. Não haverá carro invadido, tampouco transeuntes interrompidos de forma inesperada. Tudo agora acontece na segurança do espaço cênico por excelência. O azar deixa de ser moeda de troca, a esperança do imprevisto deixa de existir e o show se dá e continua da forma mais evidente possível.


De toda forma, Karcocha é um fenômeno. Por onde passa, cria um momentum em seu entorno. É magnético, é fatal, é belo. Uma beleza rara e comovente. Um gerador de peripécias ambulante e espontâneo, de vibração própria e de alta rotação, que sacoleja o corpo e espreme o riso da forma mais elementar que podem as artes cênicas. Capaz de juntar e arrastar multidões por onde vai, tudo isto com seu corpo, roupas coloridas e um apito como voz. 


Encerrar um festival de teatro com sua apresentação é apostar na eloquência do que não precisa ser dito, nem extremamente elaborado ou novidadeiro, mas pode ser visto no trânsito de pessoas que seguem um palhaço para onde quer que ele as leve, mesmo que possa ser rumo a uma grande furada. É acreditar demais em pessoas, gestos e artes que acreditam também demais. É gostoso viver em multidão, partilhar momentos raros de desequilíbrios e equilíbrios acordados ao decidirmos seguir um palhaço estrangeiro que nada diz, dizendo tudo. 


  • Esta publicação é resultado de uma das ações desta edição e não reflete necessariamente a opinião do Feverestival




 
 
 

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