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RENATA CARVALHO DESCONSTRÓI IMAGINÁRIO SOBRE CORPOS TRANS NO ENCERRAMENTO DO 15° FEVERESTIVAL

Manifesto Transpofágico estreou em 2019 em São Paulo/SP e ganhou repercussão na América Latina com atriz travesti que oferece seu corpo à observação e discussão através de histórias que fogem ao padrão normativo


Encerramento do 15º Feverestival terá Renata Carvalho no palco do Castro Mendes (Foto: Cecília Lucchesi)

por: Miguel Von Zuben


Nesta última matéria da nossa série de reportagens sobre o 15º Feverestival – Festival Internacional de Teatro de Campinas –, conversamos com Renata Carvalho (São Paulo/SP), que leva ao palco do Teatro Municipal Castro Mendes a peça Manifesto Transpofágico na sexta-feira de encerramento da programação. Durante a entrevista com a atriz, entendemos que trazer somente algumas aspas seria pouco, tamanha a riqueza de detalhes que ela expôs sobre sua trajetória.

Suas palavras serão aqui trazidas em forma de perguntas e respostas para que, assim como Renata propõe em sua transpofagia cênica, os leitores possam também “comer e digerir” os processos artísticos de criação do Manifesto, estreado em março de 2019 durante a realização da 6ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

Manifesto Transpofágico em Campinas

Antes do bate papo, é importante frisar que Renata Carvalho encerra a programação do 15º Feverestival às 20h de sexta-feira, dia 14 de fevereiro. Ocupar um teatro histórico como o Castro Mendes, com tamanha propriedade, já tem causado algumas discussões em Campinas. A travesti Helena Agalenéa, membro da curadoria desta edição do Festival, afirma que falar sobre este tema em uma cidade conservadora é de extrema importância.

“Campinas abriga o Itatinga, o maior bairro de prostituição a céu aberto da América Latina, e muitas travestis moram ali. É uma cidade com muita violência transfóbica, então ter uma travesti encerrando um festival de arte, que mobiliza a cidade inteira, é de uma importância absurda”, aponta. “O nosso corpo é uma linguagem, é revolucionário, é algo que o teatro não vê ainda. O nosso corpo está cheio de poesia, uma poesia que confronta o padrão hegemônico”.

Suzy Santos, idealizadora da Casa Sem Preconceitos, espaço criado para abrigar a população T de Campinas, vê esta apresentação como uma forma de mostrar que travestis e trausexuais podem ocupar todos os lugares. “As pessoas estão acostumadas a nos ver nas esquinas, tratando a gente como marginais. Gostaria muito que dentro deste teatro vissem a nossa população, que venham os cisgêneros e os heterossexuais também, e vejam o quanto nós podemos estar dentro de outras categorias, de outros lugares e espaços, com outras pessoas”.

Para a psicóloga do Centro de Referência LGBT de Campinas, Bárbara Menêses, a representatividade proporcionada por Renata no palco de encerramento do Feverestival confronta o momento político atual. “A população trans está desconectada do teatro. Quando elas sabem que a temática é LGBT, se interessam, porque se veem representadas. Você passa a ver ali o seu igual, seu semelhante, trazendo uma causa que é sua também, e este é um espaço em que travestis e transexuais são raros infelizmente”, acentua. “Você ver sua temática trazida num evento de porte grande faz com que as pessoas consigam se ver representadas. A pessoa pensa: ‘Se ela chegou lá eu também posso chegar, porque ela não é nada diferente de mim’. É uma forma de militância, empoderamento, quebra de preconceitos e tabus”.

O Feverestival é local de pluralidade de artistas, de trajetórias. Construir diálogos evidencia o quanto a cena teatral como um todo se constrói em rede e o quanto o Feverestival está articulado com outras redes e outros festivais também nesta programação. "Lotemos o teatro para esta mobilização, e para que os corpos trans marginalizados entendam que o espaço deles é o espaço de quem fala, de quem faz, atua, é aplaudido e louvado também. Somos corpos sagrados", finaliza a curadora.


Renata Carvalho

A atriz Renata Carvalho traz em seu corpo, como ela própria diz, um punhado de estatísticas. Aos 38 anos, já superou a média (35 anos) de expectativa de vida das travestis, foi expulsa de casa e perdeu contato com os pais. Iniciou sua carreira artística em 1996 em Santos/SP, sua cidade natal, e entendeu-se como membro da população T em 2007, quando teve contato com as questões de gênero durante um trabalho realizado com travestis e transexuais na prostituição.

Abaixo, ela conta à equipe de comunicação do Feverestival sobre sua trajetória nas artes cênicas e o que o público pode esperar de Manifesto Transpofágico, que já foi apresentado 20 vezes desde seu lançamento, e integrou a programação da Semana de Arte Trans em Montevideo/Uruguai, em abril do ano passado.

Manifesto Transpofágico desconstrói imaginário coletivo sobre travestis e transexuais Foto: Nereu Jr.)


Miguel Von Zuben: Quais Futuros Desejáveis você traz ao palco em sua montagem?

Renata Carvalho: A peça não propõe um Futuro Desejável, mas faço ela para ter um Futuro Desejável. Eu mostro a historicidade, a narrativa de como foi construída essa imagem da travesti, da pessoa trans. Mostro a construção social, midiática, carnavalesca, a criminalização, a patologização e o encarceramento em massa, como isso tudo permeou os corpos tranvestigeneres. Eu faço essa peça para que essa construção seja desconstruída, então o Futuro Desejável é o de que, quando as pessoas verem uma travesti ou uma pessoa trans, que não venha com uma bula, uma história. As pessoas olham para a gente sem conhecer quem somos e o que fazemos, e já vem um currículo de quem eu sou e, principalmente, de quem eu fui.


MVZ: Quando transexuais e travestis passam a se reconhecer e se entender como corpos fora do padrão, parece-me que recebem uma espécie de lista, de check-list de todas as normas que precisam cumprir. Você sente que sua apresentação também pode ser vista como uma forma de desconstruir esse imaginário sobre os corpos dissidentes?

RC: As pessoas acham que nós pessoas trans somos muito aficionadas com o nosso corpo, mas nós muitas vezes não conseguimos nos olhar no espelho, ou ficar à vontade completamente nus em frente ao espelho e ter este corpo aceito e entendido, porque primeiro nós precisamos nos encaixar. Nós nos forçamos a nos encaixar nestes padrões de binaridade, homem e mulher. A passabilidade não existe, é um truque cisgênero com uma falsa aceitação, porque você pode ser trans, só não pode parecer. Sou uma pessoa bem encaixada nessa binaridade, eu tentei me encaixar, ter seios, cabelos compridos, maquiagem... ter essa passabilidade que hoje entendo ser inalcançável. Eu não culpo as pessoas trans, jamais, por isso. Sou de uma geração que para ser travesti tinha que ter silicone industrial, tinha que ter seios. Porque é uma forma também, e eu te pergunto: Quem não quer ser aceito?


MVZ: Qual importância e relevância você sente por ser uma travesti apresentando, sozinha, o encerramento do 15º Feverestival?

RC: Super entendo a questão de representatividade, do fato de ter uma travesti num palco com um monólogo, com um texto escrito por mim, uma ideia minha. Mas vai ser relevante pra mim o dia em que o fato de eu ser travesti não vai ser notícia. Que só vejam a minha qualidade artística. Por isso que eu falo tanto deste corpo marcado, deste corpo que não é neutro no teatro. Ainda não é natural. Ainda vira notícia. Não é porque eu sou boa. Nós travestis sempre estivemos no teatro, mas na parte do espetáculo, do glamour. A gente chegava, abria um leque, fazia os outros rirem, e era algo geracional também. Era uma forma de sermos aceitas. Nós sempre estivemos na arte, mas ainda não nos enxergam como artistas. O teatro parece que descobriu as pessoas trans agora. Eu entendo toda a questão da representatividade, por estar ocupando um teatro histórico, mas o dia que isso não tiver relevância, vai ser melhor.


MVZ: Antes de perguntar sobre a montagem, você pode explicar o que significa a palavra 'Transpofágico'?

RC: Transpofagia é uma antropofagia trans. Como eu sou uma transpóloga, sou uma travesti que estuda o corpo trans. Quando falo que, para eu contar minha história, preciso conhecê-la, eu digo que fui comer a minha história, fui comer a minha trancestralidade. Fui me alimentar dela para digeri-la, entendê-la. Trouxe isso do Manifesto Antropofágico, do Manifesto Comunista, de todos os manifestos que temos na arte. É uma travesti comendo a sua transcestralidade.


MVZ: Qual o ponto de partida para a concepção e criação do Manifesto Transpofágico?

RC: Levei 38 anos para escrever o Manifesto [desde que nasci]. Estudo o corpo trans desde 2007 quando eu me torno agente de prevenção voluntária em Santos/SP, trabalhando com travestis e transexuais na prostituição. Este é o mesmo ano em que eu transiciono. Quando eu falei: “É Renata a partir de hoje”, foi em 2007. Como ator, eu ganhei prêmios. Mas a minha feminilidade fora dos palcos foi me tirando personagens masculinos. Só me sobravam personagens mais estereotipados. Então eu fiquei 10 anos na direção, pararam de me chamar e criei um grupo. Virei maquiadora, produtora, trabalhei muitos anos em produção de festivais. Fiquei dez anos direcionando porque eu já não acreditava que podia estar no palco, aí eu vi Phedra de Córdoba na televisão e tive minha primeira representatividade sem entender.

Em 2011 ganho um ProAC e resolvo contar minha história no teatro, em 2012, em uma peça chamada Dentro de Mim Mora Outra. As pessoas falavam: “Você, Renata, é diferente daquelas travestis”. E isso no começo você até encara como elogio, mas não é. Se a pessoa fala isso, ela é preconceituosa com todas as pessoas trans, não só com você. E aí eu comecei a me sentir mal com a peça.

Nesse meio tempo comecei a estudar biografias, todas as obras que falam de temas trans, e juntei o que hoje chamo de Travesteca, que é uma biblioteca com mais de 100 livros com temática trans. Quando começou a historinha de que eu era a 'travesti mor', por ser higienizada, fora da prostituição, eu falei: “Não posso falar só de mim”, então parei o espetáculo. Fui arrastando a montagem até 2016, e aí veio O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Veio a censura. Aí eu me aprofundei mais na censura e comecei a ir para obras acadêmicas. Entendi que precisava conhecer a minha história e percebi que não existem livros contando a história das travestis. Os livros que existem são para contar a exclusão destes corpos. Eu resolvo então escrever este livro, bem aquariana [risos].


MVZ: Aproveitando que você tocou no assunto, você já foi censurada em outros anos, cinco vezes para ser mais exato, e apesar disso, parece estar cada vez mais forte. De que forma você conseguiu usar isso a seu favor?

RC: Eu fui salva pela educação. Quando começo a ser atacada, eu sei porque estou sendo atacada, porque é uma travesti imitando Jesus. Então eu me aprofundei mesmo, verticalizei, fui para os trabalhos acadêmicos, ciências sociais, geografia, história, antropologia, sociologia, TCCs, mestrados e doutorados que falassem sobre isso. Hoje consigo conceituar representatividade, consigo conceituar porque eu fui censurada. Existe uma construção social em cima do meu corpo, independente de quem eu seja, e o Manifesto vem dessa minha inquietação lá atrás em 2012. Eu digo até que eles mexeram com a travesti errada, porque eu só estava fazendo teatro. Agora eu tô produzindo intelectualidade também.


MVZ: O que nós, aqui de Campinas, podemos esperar da sua apresentação?

RC: Nessa peça tento juntar a minha experiência como artista e como transpóloga. Têm acontecido coisas bem interessantes, já foi uma mãe com uma filha trans que não a chamava no feminino, assistiu à peça e passou a aceitar, ou talvez a gente tenha que achar outra palavra, a filha. O que quero é desconstruir esse imagético do senso comum, que permeia os nossos corpos. A montagem é feita estrategicamente para chegar nas pessoas. Eu falo em voz baixa, pausadamente, nada que remeta à violência do meu corpo, porque se eu levantar a voz, eu sou uma pessoa violenta. O meu corpo é violento. A peça traz que a mudança não está no Outro; a mudança está no Eu. Como artista, espero que o público de alguma forma seja tocado e reflita a partir disso, e termino a apresentação dizendo: “Por mais que tudo o que eu disse hoje aqui neste palco seja sobre o meu corpo, todes são responsáveis por permanecerem em status quo”.


Ficha Técnica

ENCERRAMENTO OFICIAL DO 15º FEVERESTIVAL

MANIFESTO TRANSPOFÁGICO

RENATA CARVALHO

São Paulo/SP | Espetáculo Adulto

Horário: 20h | Local: Teatro Municipal Castro Mendes

Duração: 60min | Classificação etária: 18 anos | Ingressos: R$ 10 meia / R$ 20 inteira (venda de ingressos online pela plataforma Sympla e na bilheteria do teatro) / Desconto para uso do código promocional TeatroParaTodes no ato da compra

Sinopse: Manifesto Transpofágico é a transpofagia, da transpologia de uma transpóloga. “Hoje eu resolvi me vestir com a minha própria pele. O meu corpo travesti”. Renata “se veste” com seu próprio corpo para narrar a historicidade da sua corporeidade. Renata se alimenta da sua “transcestralidade”. Come-a, digere-a. Uma transpofagia. Narra a construção social e imagética, a sexualização, os estereótipos, a transfobia estrutural, a criminalização, o encarceramento em massa, a violência e a patologização que permeia corpos como o dela. Nos convida a olhar, a observar, a ver seu corpo travesti.

Dramaturgia e atuação: Renata Carvalho | Direção: Luiz Fernando Marques (Lubi) | Luz: Wagner Antônio | Videoarte: Cecília Lucchesi | Operação e adaptação de luz: Juliana Augusta | Cenotécnico: Ciro Schu | Produção: Corpo Rastreado | Coprodução: Risco Festival, MITsp e Corpo Rastreado



Serviço

15º Feverestival

Quando: 8 a 14 de fevereiro de 2020

Onde: Campinas/SP Programação completa disponível em http://www.feverestival.com.br

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O Núcleo Feverestival é composto por Bruna Schroeder, Dandara Lequi, Dudu Ferraz, Lucas Michelani, Victor Ferrari e Vini Silveira. A curadoria dos espetáculos foi realizada por Bell Machado, Carlos Gomes, Cynthia Margareth, Dandara Lequi, Helena Agalenéa e Isis Madi.

A 15ª edição é uma realização do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, pela Sorella Produções Artísticas e pelo Feverestival; correalização da Universidade

Estadual de Campinas, Lume Teatro (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp) e Cocen (Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa). Contamos com apoio do SAE (Serviço de Apoio ao Estudante), Sesc, Sesi, Prefeitura Municipal de Campinas, ProEC, Secretaria de Cultura de México, através do Fonca (Fondo Nacional para la Cultura y las Artes), e SRE Consulado Geral do México.


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