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FEVERESTIVAL REVERENCIA O PASSADO EM SUA 15ª EDIÇÃO E TRAZ 'PISTAS' DOS FUTUROS DESEJÁVEIS

Nesta primeira matéria de uma série de reportagens, reunimos um apanhado de histórias que ajudam a contar nossa trajetória até a consolidação como parte do calendário cultural de Campinas.

Parte da equipe do 15º Feverestival, em reunião no início de janeiro de 2020 (Foto: Chun)


por: Miguel Von Zuben


Ao longo de 15 edições, o Festival Internacional de Teatro de Campinas deixou marcas da mesma maneira que as formigas traçam seu caminho para não se perderem ao olhar para as estradas. Na cidade, já fazemos parte do calendário cultural. Nas mentes de muitos moradores e dos artistas de todo o Brasil, fevereiro não é só de Carnaval – também há espaço para o nosso querido Feverestival.

Nesta edição de 2020, celebramos o passado, aclamamos pelo presente e desenhamos assim os nossos Futuros Desejáveis. Tudo isso só é possível ao visitarmos o baú de memórias das edições que nos antecederam.

“Dentro da temática, a gente contempla um olhar para o passado, para entender o que a gente viveu, o que a gente não quer mais e o que a gente quer. A ideia é que cada espetáculo traga uma pista do que pode ser este futuro”, diz Bruna Schroeder, coordenadora geral da 15ª edição.

Falamos aqui de um movimento que começou em 2003 e ganhou, ao longo dos anos, um aspecto de acolhimento e coletividade. A correria para ajustar o espaço que receberia apresentações quase na batida da meia-noite; as casas dos produtores e outros membros do festival, sempre cheias de novos visitantes; a escada do Hangar, que virava ‘carro alegórico’ enquanto era transportada para o Semente em plena Avenida Santa Isabel, sob a luz do dia.

A equipe de comunicação do Feverestival resolveu iniciar a jornada de matérias desta 15ª edição com um caráter de celebração, uma ode ao passado: um formigueiro de histórias que trazemos aqui para vocês.


Carro alegórico e os cabarets

É impossível falar do Feverestival sem trazer, em primeiro plano, o caráter de coletividade do nosso formigueiro. Isis Madi, que abraçou o Feveres na 3ª edição (e hoje faz parte da equipe de curadoria do Festival), quando fazia parte da 00 Cia. de Teatro, conta que a ocupação de um barracão chamado Hangar, que ficava ao lado do Espaço Cultural Semente, em Barão Geraldo, trouxe uma movimentação diferente para o Festival.

“Eram várias pessoas produzindo ao mesmo tempo, 16 pessoas. Era uma loucura”, conta. “Éramos todos muito jovens, recém-formados, aprendendo um pouco a produzir, batendo cabeça e fazendo coisas até malucas. Essa coisa de divisão de tarefas era complexa, a gente ficava muito cansado”.

Na época, o Feverestival durava três semanas – bastante intensivas – com apresentações diárias, além do cabaret, que existia como forma de arrecadar verba para a produção da programação. “A gente não tinha apoio de parte nenhuma (aos poucos fomos juntando apoio da Prefeitura). A gente cobrava entrada, vendia cerveja e conseguia apoio com comerciantes locais para vender pizza, cuscuz... e os artistas cediam os cachês”, lembra Isis.

“Era muito efervescente, tinha muita gente na fila para comprar ingresso e entrar. Muitos artistas também queriam participar, tanto convidados quanto viajantes, gente que estava fazendo cursos [tipicamente oferecidos em fevereiro na cidade]”.

Com o baixo – quase zerado – aporte financeiro, os membros do Feverestival acabavam recebendo muitos dos participantes em suas próprias residências. Este ato acabou se tornando uma tradição ao longo de outras edições e permanece até hoje. “O Festival foi sendo reconhecido como um lugar de muito acolhimento, porque embora a gente tivesse essa loucura de querer fazer tudo, dar conta de tudo, por outro lado a gente fazia muita questão de conviver com as pessoas que vinham. Era também o que a gente dava em troca pela falta de cachê”.

Os materiais usados nas apresentações eram emprestados. Os próprios membros montavam e organizavam tudo. O trabalho árduo e constante trouxe histórias marcantes e engraçadas, como a da arquibancada do Hangar, que era movimentada no meio da Avenida Santa Isabel para ser usada também no Espaço Cultural Semente. “Como a gente queria apresentar nos dois lugares, ia levando a arquibancada com rodas de um lugar para o outro no meio da rua, tipo um carro alegórico. É a mesma arquibancada que tem até hoje lá no Casarão”, afirma Isis.


Escola para todos

Cynthia Margareth, ex-coordenadora geral do Feverestival e hoje membro da curadoria da 15ª edição, aponta que o Festival foi uma escola. Ela entrou na equipe quando tinha 25 anos, em 2006. “Nele fui me fazendo e me descobrindo, sempre acreditando em festivais. Cheguei a ter reuniões com secretarias e eu, nos meus 20 e tantos anos, tendo que explicar que teatro era uma profissão, que a gente pagava cachê para as pessoas”.

A conquista deste espaço, que foi sendo construído durante anos, tornou o Feveres uma referência e uma espera para diversos públicos de Campinas. “Foi uma formação com impacto na cidade porque a gente via que já tinha o reconhecimento e o entendimento das pessoas do meio, dos artistas, e da importância e profissionalização que ele traz”.

Segundo Cynthia, os anos iniciais foram capazes de trazer nomes até então desconhecidos, como Silvero Pereira, que recentemente interpretou o personagem Lunga no longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Bacurau. "Muitos resolviam vir mais pelo impacto que eles poderiam causar na cidade, do que por recursos que eles iam receber. A maioria da programação não vinha por uma coisa de: ‘Ah, quero ganhar x, y’... ela vinha de uma relação afetiva, e de acreditar humanamente na força que iriam e vão impactar na vida de cada um”.


Acolhimento e enfrentamento

Assim como Kaian Ciasca, que esteve à frente da comunicação do Feverestival até a edição anterior, em 2018, muitos outros chegaram ‘de mansinho’ na produção do Festival. “Minha mãe dava aula em Barão Geraldo e eu ficava muito próximo dessa galera. Quando era pequeno, meu pai sempre me levava junto para assistir os espetáculos. Com o tempo, fui desenhando minha entrada nesse campo. Ele já era fotógrafo e foi comigo para a gente fazer os registros. Isso aconteceu em 2016”, lembra.

Para ele, o espaço que o Festival proporciona de experimentação da organização de um evento foi importante em sua formação. “Existe aí um lugar de improviso, mas também de profissionalização. É todo mundo muito perto. A gente foi vendo onde dava para crescer, desenhando formas de remunerar a equipe, e até mesmo com a entrada das bolsas da Unicamp”. Hoje, 17 bolsistas fazem parte da equipe de organização e concepção do 15º Feverestival. Os alunos recebem aporte financeiro do Serviço de Apoio ao Estudante, o SAE, da Unicamp.

Nas memórias que perpassam a mente de Kaian, ele relembra um episódio recente, da 14ª edição, em que o diálogo com os vizinhos do Casarão foi necessário. Revelou-se ali o enfrentamento da arte. “A peça Canto para Rinocerontes e Homens [Teatro do Osso, São Paulo/SP] era uma que eu particularmente queria muito que viesse para o Feverestival. Eles foram selecionados em 2018. Nesse período ela terminava com um cara andando pelado, ele saía e encerrava com todo mundo cantando atrás dele na rua. Um corpo cis e preto, nu, e todo mundo das casas vizinhas saiu para ver”, relata.

Apresentação de Canto para Rinocerontes e Homens em 2018, no 14º Feverestival (Foto: Ana Carol Salomão)


“Aí a gente olha para a resistência, aquela coisa que incomoda, e em uma das casas um cara xingou por estarmos fazendo isso. A gente tentou dialogar com ele, porque ia ter apresentação no dia seguinte de novo” relembra. “Foi um corre, mas deu tudo certo. Foi muito legal entender esse lugar do incômodo. A gente mudou o trajeto para conseguir fazer de novo, sem deixar que o espetáculo terminasse lá dentro”.


Resistência

Com a ocupação de tantos espaços não só de Barão Geraldo, mas de toda a cidade de Campinas, a Secretaria de Cultura, que vem acompanhando as edições do Feveres já há alguns anos, reconhece a importância do movimento como parte consolidada do calendário da cidade e oferece hoje apoio na realização da 15ª edição

Para Bruna, coordenadora geral, a realização deste ano traz diversos desafios para a nova gestão, completamente reestruturada, e gera questionamentos sobre o desmonte construído pelos atuais governos federal e estadual. “Os festivais sofrem. Até os maiores são atingidos pelo momento político atual. Não existem políticas públicas que pensam continuidade, todos os editais são para viabilizar uma edição, e não três ou cinco”, finaliza.


Serviço

15º Feverestival

Quando: 8 a 14 de fevereiro de 2020

Onde: Campinas/SP

Programação completa disponível em http://www.feverestival.com.br

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O Núcleo Feverestival é composto por Bruna Schroeder, Dandara Lequi, Dudu Ferraz, Lucas Michelani, Victor Ferrari e Vini Silveira. A curadoria dos espetáculos foi realizada por Bell Machado, Carlos Gomes, Cynthia Margareth, Dandara Lequi, Helena Agalenéa e Isis Madi.

A 15ª edição é uma realização do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, pela Sorella Produções Artísticas e pelo Feverestival; correalização da Universidade Estadual de Campinas, Lume Teatro (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp) e Cocen (Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa). Contamos com apoio do SAE (Serviço de Apoio ao Estudante), Sesc, Sesi, Prefeitura Municipal de Campinas, ProEC, Secretaria de Cultura de México, através do Fonca (Fondo Nacional para la Cultura y las Artes), e SRE Consulado Geral do México.

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